Um Funeral à Chuva e um desabafo.
Cenas tristes, Cinema, Dia a Dia, Um Funeral à Chuva 7 Commentários »Antes de mais, abertura total:
Estou demasiadamente envolvido com o filme “Um Funeral à Chuva” para ter uma opinião completamente imparcial. Trabalho há dois anos e meio na produtora Lobby Productions, acompanhei o progresso do filme desde quando ainda se chamava “Tempo Presente, memórias de um estudante” e era uma história completamente diferente. Convivo diariamente com o filme, e com as pessoas envolvidas. Sinto que foi pela minha mão, directa ou indirectamente, que dois dos actores foram trazidos para o projecto. Trabalhei em praticamente todos os projectos do Luís Campos, argumentista. Vivi, nos meus tempos de estudante, com a Ana Almeida (chefe de produção e namorada do Luís). Os “Ovos Mexidos” do final da noite, que o André refere brevemente no filme eram normalmente na “Mágica Casa”, a casa onde vivi durante 6 anos. O jantar de caloiros que o Luís incluiu no guião foi o meu primeiro jantar de caloiro na Covilhã (ou pelo menos eu gosto de pensar que sim), onde o Luís Campos, a Ana Almeida, e o José Ratinho (director artístico) também estavam, assim como outros colegas que ao longo do curso se tornaram grandes amigos. O episódio da unha aconteceu realmente. Tenho, por isso, muitos amigos que mesmo não participando na produção do “Funeral”, ajudaram indirectamente a que o filme fosse feito.
Também não consigo ser imparcial porque estudei Cinema na UBI. Ou estudo ainda, não sei bem. Entrei para o curso e vim para a Covilhã em 2003, no ano em que o curso abriu. Conheço profundamente a realidade deste curso, e o quanto todos nós lutamos para ter algum material e poder fazer umas curtas engraçadas. Agora faltam-me duas cadeiras para terminar o Mestrado, curiosamente uma delas é “Crítica de Cinema”. Já tinha feito vários projectos com praticamente todas as pessoas envolvidas no “Funeral”. A transição das “curtas” para a longa foi natural. Natural no sentido em que continuou a ser tudo feito por amor ao cinema, sem dinheiro, com muita vontade e muito trabalho. Tudo isto pela mão do Telmo, que foi suficientemente louco para querer avançar com a produção deste projecto. Se há coisa que nunca pode ser posta em causa, é a ambição do Telmo, do Luís Dias, da Dina e do João Feitor, sócios da Lobby.
Agora a parte do desabafo.
Fico muito triste ao ler certas críticas que são feitas ao filme. Não por dizerem coisas más sobre o filme – isso compreendo e respeito. Eu próprio consigo enumerar dezenas de aspectos que não gosto no filme ou que deviam ser melhorados. Não gosto é que falem mal só por falar mal. Isto não é crítica. É maldade e desrespeito. Também não gosto que algumas pessoas justifiquem a sua opinião negativa com críticas negativas de quem escreve para jornais conhecidos, só porque escrevem para jornais conhecidos. Também não gosto que justifiquem o facto de não gostarem do filme com uma falha técnica, do tipo, “há um plano que se vê o morto a respirar”. Isso já é entrar no campo do mesquinho. É como se eu dissesse que o Blade Runner é um mau filme porque há um plano em que se vê que os carros voadores estão, na verdade, presos por fios. O desplante! O Ridley Scott, em 1982, deveria ter arranjado carros que voassem MESMO! (longe de mim comparar “Um Funeral à Chuva” a “Blade Runner”, mas isto é só um exemplo). Não gosto do lugar comum que se tornou compararem o “Funeral” com “Os Amigos de Alex”. Já toda a gente sabe isso, não parecem um bocadinho mais cultos de todas as vezes que a comparação é feita. O Avatar também tem a mesma premissa que Pocahontas. E daí?
Li uma crítica em particular, que me deixou de boca aberta. “A curta Azeitona é melhor que Um Funeral à Chuva”. Isto é como comparar uma casa de Legos a uma casa de tijolo e cimento. A casa de Legos pode ser bem mais bonita que a casa de tijolo, mas são coisas completamente diferentes. E eu adorei o Azeitona, acho que é a melhor curta já feita na UBI, e tenho grande amizade e carinho pelas quatro pessoas que o fizeram: O Luís Campos, a Ana Almeida, o João Gazua e o Humberto Rocha (curiosamente pessoas envolvidas no “Funeral” ou com passado ligado à Lobby). O “Azeitona” é uma curta-metragem madura, pensada, feita por pessoas com muita experiência em curtas-metragens. O “Funeral” é uma longa-metragem feita por pessoas com muita experiência em curtas-metragens, mas sem experiência em longas. Isso nota-se por exemplo no maior problema com que o filme se debate – a sua duração (curiosamente também, o Azeitona é uma “curta bem longa”, com mais de 40 minutos).
Também já li todo o tipo de barbaridades, do género “O ICA não apoia filmes comerciais”. Só enumero dois filmes – “A Bela e o Paparazzo” e “Amália”. Esta informação é pública e está disponível no site da instituição. Podia dizer outros, mas estes chegam. Já li também que houve um jogo de bastidores, e que a Câmara Municipal da Covilhã apoiou secretamente o filme, caso contrário não teria sido feito na Covilhã. Isto é pura e simplesmente mentira. Apoiou sim, de certa forma. Forneceu corrente eléctrica nos vários locais onde queríamos filmar, e deu-nos todo o tipo de autorizações que eram necessárias. Em termos monetários contribuiu simbolicamente. Não revelo o valor, mas foi irrisório. Houve apoios bem maiores, logisticamente, como o caso do Grupo Natura IMB.
Já li também por várias vezes a insinuação que é um “vídeo amador”. Isto para mim é um elogio. É sim, um vídeo amador. É um projecto amador, porque é feito por pessoas que fazem o que fazem, porque gostam. Obrigado pelo elogio.
“Um Funeral à Chuva” é um filme simples, sobre a amizade, feito por um grupo de amigos. Conseguimos leva-lo a 20 salas de cinema, o que por si só é uma vitória. Tem as suas fragilidades, claro. Foi a primeira longa-metragem de quase toda a gente envolvida no projecto. A próxima será melhor.
Repito que não tenho absolutamente nada contra as críticas não favoráveis ao filme. Até concordo com quase todas, em alguns pontos. Só não acho correcta a forma como se deita algo abaixo, ao que parece, só por ser nacional, enquanto filmes como “Street Dance 3D” ou “O Sexo e a Cidade 2″ têm dezenas de milhares de espectadores e estão em centenas de salas. Será que o público português se identifica mais com as quatro amigas cosmopolitas que vão para o deserto encher de areia os seus sapatos Prada?
No entanto, soube hoje que “Um Funeral à Chuva” foi o 11º filme mais visto este fim-de-semana em Portugal, logo abaixo de Iron Man 2. Não vai de encontro aos objectivos a que nos propúnhamos, mas não é mau de todo para um filme feito na Covilhã, por uma produtora com 4 sócios e 4 funcionários, uma mão-cheia de alunos de Cinema da UBI, sem dinheiro, e com “actores de novela” pois não?