Um Funeral à Chuva e um desabafo.
Cenas tristes, Cinema, Dia a Dia, Um Funeral à Chuva 7 de Junho de 2010 às 16:09Antes de mais, abertura total:
Estou demasiadamente envolvido com o filme “Um Funeral à Chuva” para ter uma opinião completamente imparcial. Trabalho há dois anos e meio na produtora Lobby Productions, acompanhei o progresso do filme desde quando ainda se chamava “Tempo Presente, memórias de um estudante” e era uma história completamente diferente. Convivo diariamente com o filme, e com as pessoas envolvidas. Sinto que foi pela minha mão, directa ou indirectamente, que dois dos actores foram trazidos para o projecto. Trabalhei em praticamente todos os projectos do Luís Campos, argumentista. Vivi, nos meus tempos de estudante, com a Ana Almeida (chefe de produção e namorada do Luís). Os “Ovos Mexidos” do final da noite, que o André refere brevemente no filme eram normalmente na “Mágica Casa”, a casa onde vivi durante 6 anos. O jantar de caloiros que o Luís incluiu no guião foi o meu primeiro jantar de caloiro na Covilhã (ou pelo menos eu gosto de pensar que sim), onde o Luís Campos, a Ana Almeida, e o José Ratinho (director artístico) também estavam, assim como outros colegas que ao longo do curso se tornaram grandes amigos. O episódio da unha aconteceu realmente. Tenho, por isso, muitos amigos que mesmo não participando na produção do “Funeral”, ajudaram indirectamente a que o filme fosse feito.
Também não consigo ser imparcial porque estudei Cinema na UBI. Ou estudo ainda, não sei bem. Entrei para o curso e vim para a Covilhã em 2003, no ano em que o curso abriu. Conheço profundamente a realidade deste curso, e o quanto todos nós lutamos para ter algum material e poder fazer umas curtas engraçadas. Agora faltam-me duas cadeiras para terminar o Mestrado, curiosamente uma delas é “Crítica de Cinema”. Já tinha feito vários projectos com praticamente todas as pessoas envolvidas no “Funeral”. A transição das “curtas” para a longa foi natural. Natural no sentido em que continuou a ser tudo feito por amor ao cinema, sem dinheiro, com muita vontade e muito trabalho. Tudo isto pela mão do Telmo, que foi suficientemente louco para querer avançar com a produção deste projecto. Se há coisa que nunca pode ser posta em causa, é a ambição do Telmo, do Luís Dias, da Dina e do João Feitor, sócios da Lobby.
Agora a parte do desabafo.
Fico muito triste ao ler certas críticas que são feitas ao filme. Não por dizerem coisas más sobre o filme – isso compreendo e respeito. Eu próprio consigo enumerar dezenas de aspectos que não gosto no filme ou que deviam ser melhorados. Não gosto é que falem mal só por falar mal. Isto não é crítica. É maldade e desrespeito. Também não gosto que algumas pessoas justifiquem a sua opinião negativa com críticas negativas de quem escreve para jornais conhecidos, só porque escrevem para jornais conhecidos. Também não gosto que justifiquem o facto de não gostarem do filme com uma falha técnica, do tipo, “há um plano que se vê o morto a respirar”. Isso já é entrar no campo do mesquinho. É como se eu dissesse que o Blade Runner é um mau filme porque há um plano em que se vê que os carros voadores estão, na verdade, presos por fios. O desplante! O Ridley Scott, em 1982, deveria ter arranjado carros que voassem MESMO! (longe de mim comparar “Um Funeral à Chuva” a “Blade Runner”, mas isto é só um exemplo). Não gosto do lugar comum que se tornou compararem o “Funeral” com “Os Amigos de Alex”. Já toda a gente sabe isso, não parecem um bocadinho mais cultos de todas as vezes que a comparação é feita. O Avatar também tem a mesma premissa que Pocahontas. E daí?
Li uma crítica em particular, que me deixou de boca aberta. “A curta Azeitona é melhor que Um Funeral à Chuva”. Isto é como comparar uma casa de Legos a uma casa de tijolo e cimento. A casa de Legos pode ser bem mais bonita que a casa de tijolo, mas são coisas completamente diferentes. E eu adorei o Azeitona, acho que é a melhor curta já feita na UBI, e tenho grande amizade e carinho pelas quatro pessoas que o fizeram: O Luís Campos, a Ana Almeida, o João Gazua e o Humberto Rocha (curiosamente pessoas envolvidas no “Funeral” ou com passado ligado à Lobby). O “Azeitona” é uma curta-metragem madura, pensada, feita por pessoas com muita experiência em curtas-metragens. O “Funeral” é uma longa-metragem feita por pessoas com muita experiência em curtas-metragens, mas sem experiência em longas. Isso nota-se por exemplo no maior problema com que o filme se debate – a sua duração (curiosamente também, o Azeitona é uma “curta bem longa”, com mais de 40 minutos).
Também já li todo o tipo de barbaridades, do género “O ICA não apoia filmes comerciais”. Só enumero dois filmes – “A Bela e o Paparazzo” e “Amália”. Esta informação é pública e está disponível no site da instituição. Podia dizer outros, mas estes chegam. Já li também que houve um jogo de bastidores, e que a Câmara Municipal da Covilhã apoiou secretamente o filme, caso contrário não teria sido feito na Covilhã. Isto é pura e simplesmente mentira. Apoiou sim, de certa forma. Forneceu corrente eléctrica nos vários locais onde queríamos filmar, e deu-nos todo o tipo de autorizações que eram necessárias. Em termos monetários contribuiu simbolicamente. Não revelo o valor, mas foi irrisório. Houve apoios bem maiores, logisticamente, como o caso do Grupo Natura IMB.
Já li também por várias vezes a insinuação que é um “vídeo amador”. Isto para mim é um elogio. É sim, um vídeo amador. É um projecto amador, porque é feito por pessoas que fazem o que fazem, porque gostam. Obrigado pelo elogio.
“Um Funeral à Chuva” é um filme simples, sobre a amizade, feito por um grupo de amigos. Conseguimos leva-lo a 20 salas de cinema, o que por si só é uma vitória. Tem as suas fragilidades, claro. Foi a primeira longa-metragem de quase toda a gente envolvida no projecto. A próxima será melhor.
Repito que não tenho absolutamente nada contra as críticas não favoráveis ao filme. Até concordo com quase todas, em alguns pontos. Só não acho correcta a forma como se deita algo abaixo, ao que parece, só por ser nacional, enquanto filmes como “Street Dance 3D” ou “O Sexo e a Cidade 2″ têm dezenas de milhares de espectadores e estão em centenas de salas. Será que o público português se identifica mais com as quatro amigas cosmopolitas que vão para o deserto encher de areia os seus sapatos Prada?
No entanto, soube hoje que “Um Funeral à Chuva” foi o 11º filme mais visto este fim-de-semana em Portugal, logo abaixo de Iron Man 2. Não vai de encontro aos objectivos a que nos propúnhamos, mas não é mau de todo para um filme feito na Covilhã, por uma produtora com 4 sócios e 4 funcionários, uma mão-cheia de alunos de Cinema da UBI, sem dinheiro, e com “actores de novela” pois não?
Junho 7th, 2010 at 17:02
Este Ivo Silva é um charlatão! Não acreditem em nada do que diz. Isso do Azeitona é pura mentira, o filme SÓ! tem 36 minutos… Isso é criticar por criticar, pah. Sabes lá o que é duração de filmes, tu! :p
Agora a sério, infelizmente ainda não consegui ver o filme, mas tenho lido quase tudo o que por aí se escreve, e não posso deixar de partilhar da mágoa que sentem. Infelizmente, há nesse país mais críticos de cinema (seja lá o que isso for) do que gente a fazer coisas por gosto, por causas, por amor.
Mas como vos conheço, sei que não se deixam ir abaixo com tão pouco, bem pelo contrário, certo?
You’ll never walk alone! A nossa causa é a mesma. Nada vos dará o prazer de ver o sorriso contagiante com que aquela gente saiu do S. Jorge.
Um abraço amigo!
Junho 7th, 2010 at 17:17
Ouvi dizer que “”Um Funeral à Chuva” conseguiu a melhor estreia do ano até ao momento para uma produção portuguesa com quase 3 mil espectadores.” in Cinemax”
Junho 7th, 2010 at 21:10
Da-lhes gajo! Ainda não li crítica nenhuma, digo, daquela chamada de especializada… Vou amanhã ver o filme, estou ansiosa, e por algumas imagens já sei que vou gostar! Caga para as críticas. Não é mais compensador, do que terem chegado onde chegaram, sem apoios nenhuns,do que o filme chegue às pessoas e que as toque! Beijo!
Junho 7th, 2010 at 22:55
Ibu, a minha opinião muito sincera é que, antes de ver o filme (vi ontem), li todo o tipo de criticas. Sentia-me orgulhosa pelos enormes elogios que quem viu o filme sentiu necessidade em expor, e senti que era razoavel que algumas criticas menos boas tivessem razao. Quando fui ver o filme, depois de tudo o que tinha lido, saí de lá completamente surpreendida pela positiva. Gostei muito, para mim foi um dos filmes portugueses mais bem conseguidos, com bons actores, com uma historia completamente real, que nada mais é do que o retrato de uma epoca tao especial para todos nós… Saí emocionada, sem dúvida, arrepiada… saí orgulhosa e foi um filme que, de principio ao fim, fez rir e emocionar quem estava presente, de uma forma completamente espontanea. Onde quero chegar com tudo isto é que, por muitas criticas que as pessoas leiam, nao devem nunca tomar partido sem verem o filme e falarem por si. se as pessoas pensassem por si proprias, ao ler essas criticas deviam ficar com mais vontade de ver o filme e ir directos para uma sala de cinema para ter direito à sua opiniao. tenho a certeza absoluta que todos ficariam agradavelmente surpreendidos com o resultado. Da minha parte… Parabéns! ja votei no filme em tudo o que é sitio e tenho tentado divulgar o maximo que consigo. Se estivesse por mais salas de cinema, tenho a certeza que estaria muito acima das expectativas de qualquer um. Bjs e maior Força e sucesso para todos.
Junho 8th, 2010 at 11:08
Muitos críticos em Portugal são cineastas frustrados. Por isso, não te deixes abater.
Junho 11th, 2010 at 2:37
Epá…eu já vi o filme…and it sucks… deixem lá o choradinho de parte… é como dizes o próximo será melhor… mas este…sucks… e por favor publica o comentário…
Junho 11th, 2010 at 10:31
Covilhoco,
Não é choradinho, é só um desabafo no meu blog pessoal. Fui sincero e comentei o meu envolvimento no filme, mas isto não é um comentário “oficial” da Lobby nem da produção, longe disso. É só um desabafo meu, pessoal, contra algumas críticas negativas, não pela crítica não ser favorável ao filme, mas porque algumas parecem que apenas querem deitar o filme abaixo sem dizer porquê. Críticos profissionais devem justificar as suas opiniões, senão o que temos é uma pessoa que é paga para dizer mal de um trabalho feito por pessoas que não receberam nada. Não tenho nada contra críticas negativas, mas gosto que as sustentem.
Dizer que o filme “sucks” sem desenvolver porquê é o mesmo que não dizer nada. Podes pelo menos dizer porque é que não gostaste do filme? Escrever umas linhas sobre a tua reacção? São essas opiniões que são importantes, fazem com que futuros trabalhos não sofram dos mesmos problemas que este sofreu.
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