Num piscar de olhos…
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Walter Murch é um conceituado montador e sonoplasta de Hollywood, vencedor de 3 Óscares. No seu currículo apresenta filmes como “O Padrinho” II e III, “O Paciente Inglês”, “Cold Mountain”, “O Talentoso Mr. Ripley”, “Apocalipse Now” e “Ghost”, entre outros.
Este ensaio vai abordar algumas das técnicas que Murch utiliza no seu dia-a-dia, adquiridas ao longo dos seus já muitos anos de experiência na área da montagem. Esta análise é feita após uma leitura de “Num Piscar de Olhos”, uma transcrição de uma palestra que Murch deu na Austrália.
Murch começa por falar do corte em si. O que é um corte? E porque é que os cortes funcionam? Tudo aponta para que o corte não funcione e seja contra-natura, mas na verdade funciona na perfeição. No nosso dia a dia não há cortes no campo espaço-temporal. Se eu todos os dias vou para a Universidade, tenho de percorrer todo o caminho, não salto simplesmente de um ponto para o outro. Não sou omnipresente para conseguir ver uma situação de vários ângulos diferentes.
A verdade é que tudo tem um ângulo a partir do qual se vê a sua melhor representação. E existe uma ligação entre isto e corte. Decide-se mostrar a situação de uma forma diferente, porque é a melhor forma de o fazer. E aí corta-se. Já no Egipto antigo as representações das pessoas eram feitas assim. Os pés, os braços e a cabeça estavam de perfil, e o tronco estava de frente, porque são os ângulos que mais os distinguem. E juntavam essas perspectivas numa só imagem. Hoje parecem-nos figuras “tortas”, mas talvez daqui a uns anos quando formos a um Cinema 3D com Hologramas, historias interactivas e tudo o mais, o corte que se faz hoje nos pareça “torto” também.
No entanto, e apesar destas circunstâncias, Murch acredita que o corte funciona porque os nossos sonhos funcionam assim. Quando sonhamos, alinhamos imagens e fazemos “cortes” na nossa mente. Por isso é que quando vemos um filme, aquele salto no espaço e no tempo que acontece com uma determinada latência nos parece normal. Murch vai ainda mais longe, e afirma que um filme é como um sonho. Quando temos um pesadelo, pensamos “tem calma, é só um sonho”. Da mesma forma, quando vemos um filme que nos deixa tristes ou com medo pensamos “tem calma, é só um filme”. Por isso é que os cortes nos são tão normais. Aliás, se virmos um filme com planos muito longos e estáticos, acabamos por achar que o filme é uma “seca”.
Murch afirma ainda que as preocupações com a continuidade e erros de raccord são menos importantes que a Emoção, o Enredo e o Ritmo da história que se está a contar. Não importa que o copo esteja cheio e depois vazio. Também não interessa se o cabelo está diferente. Saltos espaciais de personagens também não nos incomodam, desde que a emoção da cena esteja lá. Depois vem o enredo, se é ou não desenvolvido, e logo depois está o ritmo. Se estamos indecisos num corte, devido a um erro de continuidade, devemos pensar “se eu fizer este corte assim, independentemente do erro de continuidade, a história vai avançar? A emoção da cena mantém-se?” Se sim, então… corta-se! (ndr. Tal e qual como o exemplo que o Prof. Nogueira dá do 24 e a violação da regra dos 180º. Nesse caso especifico manteve o ritmo e a emoção da cena, daí que a violação da regra não tem importância, desde que se saiba o motivo pela qual a estamos a violar, claro.)
Mas o ponto mais importante de todo o livro, é sem dúvida, a questão do piscar de olhos. É nesta teoria que Murch desenvolve o seu livro. Conta ele, anedóticamente, que um dia se apercebeu que cortava sempre mais ou menos na mesma altura que o actor pestanejava.
Uma grande parte dos montadores profissionais, e mesmo nós estudantes de Cinema, já faz esse corte, sem saber conscientemente porque é que o corte funciona naquele exacto momento, e não noutro qualquer.
Imaginemos o seguinte exemplo. Eu peço-lhe para olhar para o candeeiro da sua secretária, que está do lado direito. Quando olha pela primeira vez, nao pestaneja. No entanto, no movimento de volta à posição inicial, já pestaneja. Isto acontece porque o seu cérebro já “sabe” o que está no meio, então pode “cortar”.
Imaginemos que estamos a assistir a uma conversa entre duas pessoas. Em que medida alternamos o nosso olhar entre as duas? Se reparar, o movimento que faz com a cabeça (ou com os olhos) não acontece só quando alguém acaba de falar. Se isso acontecesse, seriamos quase uma bola num campo de ténis. O nosso cérebro tem a capacidade de “medir” a importância do que está a ser dito por um interveniente, e assim que o que realmente importa foi dito, voltamos o olhar para a outra pessoa, mesmo que a primeira ainda esteja a falar, à espera de uma reacção.
É isto que se tenta fazer quando se monta um filme. Identificar o momento em que o espectador irá pestanejar, e fazer o corte nesse sítio. Murch afirma que quando se trabalha com bons actores a tarefa fica facilitada. Isso acontece porque nesses casos o actor assimilou e encarnou na perfeição a personagem, e “vive” aquele momento, pestanejando também nos momentos certos. Este aspecto distingue os bons dos maus actores. Muitas vezes vemos um filme e um actor parece-nos mal no papel da personagem e não nos apercebemos porquê. Muito provavelmente não está a pestanejar nos momentos certos, logo, não encarnou bem a personagem e não nos é credível.
Utiliza-se então esta técnica de não esperar que o actor/personagem termine de falar, para mostrar a pessoa que ouve, e a sua reacção, enquanto a outra personagem ainda está a falar.
Outra técnica, que também está relacionada com esta, e principalmente com a dos sonhos, é a de o som da cena seguinte estar incorporado na cena anterior. Isto, no nosso dia-a-dia acontece, por exemplo, quando o nosso despertador toca e apesar de não acordarmos imediatamente, o som do despertador incorpora-se no nosso sonho. Depois acordamos e vemos que era o despertador.
Para terminar, Murch dá uma sugestão que eu considero genial, e adorava que alguém a concretizasse. Quando se filma alguém com uma câmara infra-vermelhos (vulgo visão-nocturna, à la Big Brother), os olhos ficam cintilantes, como duas luzes. Porque não filmar a plateia de um cinema com câmaras de infra-vermelhos durante a projecção de um filme? Poderiamos, assim, tirar todo um tipo de conclusão, ao ver aquele universo de luzinhas cintilantes, e ver com que frequencia pestanejavam e até se o faziam em conjunto. Isso poderia mostrar-nos se estavam envolvidos no filme, e se os cortes que fizemos foram de encontro ao que o espectador esperava.
Porque não fazer a experiência?
